O português típico dirige-se a um centro comercial à hora de almoço durante um atarefado dia de semana para almoçar qualquer coisa rápida. Ele entra no centro comercial, selecciona rápidamente qual o local que o deixará devidamente alimentado na menor quantidade de tempo e pela menor quantidade de dinheiro, põe-se na fila e espera até ser servido, deambula com o seu tabuleiro alguns instantes enquanto procura uma mesa vaga, senta-se, come e vai embora o mais de pressa possível. Assim é o tipico português num dia de semana à hora do almoço num centro comercial. A hora de almoço é curta. O stress é grande. A fome é muita.
Mas ontem assisti a uma cena que me fez rever o que é realmente um português "tipico" à hora de almoço num centro comercial. Estou eu sentada a almoçar quando um senhor na casa dos 40 se aproxima da mesa mais próxima e se senta. Tira o casaco do fato, pousa-o nas costas da cadeira ajeitando os ombros para não amassar. Pousa a pasta de cabedal castanho na mesma cadeira e senta-se. Até aqui tudo bem. Mais um no meio de muitos.
Depois de sentado abre a pasta e retira de lá o jornal. Descalça os sapatos (que estão apertados, e estamos em horário de almoço, o senhor queria esticar os dedinhos! o que importa se está a faze-lo em pleno centro comercial apinhado e não no conforto do seu sofazinho em casa??), abre o jornal e vai lendo calmamente. Ri-se de uma noticia (cada coisa, neste mundo!!...), pousa o jornal e vai novamente à pasta aberta. Lá de dentro tira um saco do continente fechado com um nó. Lá dentro? Sardinhas fritas, ao monte, um bocadinho amachucadas por terem passado a manhã a marinar dentro da pasta e fechadas num saco de plástico atado com um nó (higiene acima de tudo!!). De dentro da pasta saiu ainda uma caixa de "carte d'or" que continha salada com muita maionaise e meia baguette. E foi a este espectáculo que eu assisti enquanto almoçava: o homem petiscava imune ao resto do mundo: com uma mão segurava o jornal dobrado, com a outra ia apanhando sardinhas, alface e pão. Os pés, ainda fora dos sapatos, descansavam adequadamente pousados sobre os ditos. O telemovel tocou uma série de vezes, entoando o "nokia tune" que já ninguém pode ouvir. Mas era hora de almoço, o senhor não atendeu ninguém. E quando terminou o seu tempo, totalmente imune aos multiplos outros executivos que deambulavam aceleradamente à sua volta, o senhor retirou de dentro da pasta um guardanapo: limpou os restinhos de maionaise de dentro da caixa e arrumou-a. Limpou um par de gotas de molho de sardinha da mesa e dobrou o saquinho. Lambeu a ponta de todos os dedinhos para garantir que não havia uma imperfeição a ser notada (dignidade! acima de tudo dignidade!), calçou os sapatos, vestiu de novo o casaco do fato, pegou na pasta e no jornal e foi-se embora calmamente. E assim, senhores, descobri que existe um português muito mais tipico do que se pensava a frequentar centros comerciais apinhados à hora de almoço. Um que se serve deles porque fica mais perto do que ir a casa, mas que não abdica dos confortos do lar! Nem do menu do verdadeiro lisboeta na primavera. E que ninguém me venha falar da crise, e do que leva as pessoas a fazer! Isto, senhores, não é fruto de crise rigorosamente nenhuma! Isto é um verdadeiro português como (graças a Deus...) já não se fazem assim tantos!...
Mas ontem assisti a uma cena que me fez rever o que é realmente um português "tipico" à hora de almoço num centro comercial. Estou eu sentada a almoçar quando um senhor na casa dos 40 se aproxima da mesa mais próxima e se senta. Tira o casaco do fato, pousa-o nas costas da cadeira ajeitando os ombros para não amassar. Pousa a pasta de cabedal castanho na mesma cadeira e senta-se. Até aqui tudo bem. Mais um no meio de muitos.
Depois de sentado abre a pasta e retira de lá o jornal. Descalça os sapatos (que estão apertados, e estamos em horário de almoço, o senhor queria esticar os dedinhos! o que importa se está a faze-lo em pleno centro comercial apinhado e não no conforto do seu sofazinho em casa??), abre o jornal e vai lendo calmamente. Ri-se de uma noticia (cada coisa, neste mundo!!...), pousa o jornal e vai novamente à pasta aberta. Lá de dentro tira um saco do continente fechado com um nó. Lá dentro? Sardinhas fritas, ao monte, um bocadinho amachucadas por terem passado a manhã a marinar dentro da pasta e fechadas num saco de plástico atado com um nó (higiene acima de tudo!!). De dentro da pasta saiu ainda uma caixa de "carte d'or" que continha salada com muita maionaise e meia baguette. E foi a este espectáculo que eu assisti enquanto almoçava: o homem petiscava imune ao resto do mundo: com uma mão segurava o jornal dobrado, com a outra ia apanhando sardinhas, alface e pão. Os pés, ainda fora dos sapatos, descansavam adequadamente pousados sobre os ditos. O telemovel tocou uma série de vezes, entoando o "nokia tune" que já ninguém pode ouvir. Mas era hora de almoço, o senhor não atendeu ninguém. E quando terminou o seu tempo, totalmente imune aos multiplos outros executivos que deambulavam aceleradamente à sua volta, o senhor retirou de dentro da pasta um guardanapo: limpou os restinhos de maionaise de dentro da caixa e arrumou-a. Limpou um par de gotas de molho de sardinha da mesa e dobrou o saquinho. Lambeu a ponta de todos os dedinhos para garantir que não havia uma imperfeição a ser notada (dignidade! acima de tudo dignidade!), calçou os sapatos, vestiu de novo o casaco do fato, pegou na pasta e no jornal e foi-se embora calmamente. E assim, senhores, descobri que existe um português muito mais tipico do que se pensava a frequentar centros comerciais apinhados à hora de almoço. Um que se serve deles porque fica mais perto do que ir a casa, mas que não abdica dos confortos do lar! Nem do menu do verdadeiro lisboeta na primavera. E que ninguém me venha falar da crise, e do que leva as pessoas a fazer! Isto, senhores, não é fruto de crise rigorosamente nenhuma! Isto é um verdadeiro português como (graças a Deus...) já não se fazem assim tantos!...
Descobri recentemente que sou absolutamente incapaz de preparar legumes para a sopa sem começar a roubar cubinhos de cenoura. Ainda pensei que era capaz de resistir. Afinal não. Fraquinha...