Eis que decorre o dia 22 de Maio de 2009, sexta feira, quando aqui a querida Aninhas se desloca até ao Pingo Doce mais próximo para repor a dispensa para o fim de semana que se aproxima.
Sou uma pessoa simpática. Sou uma daquelas pessoas que continua a acreditar que as coisas boas que fazemos aos outros nos são retribiudas. Sou uma daquelas criaturinhas que se guia pela bonita teoria do "faz aos outros o que esperas que também te façam a ti". Portanto eu cheguei lá e esperei pacientemente que a senhora da florista tirasse as caixas do meu caminho para eu passar. "Peço desculpa" "Não faz mal, esteja à vontade." Sorrisinho dela. Sorrisinho meu. Eu chego ao corredor do enlatados e um senhor com ar perdido pede-me indicações sobre onde encontrar um produto. Eu lá lhe disse. "Muito obrigado!" "De nada!" Sorrisinho dele. Sorrisinho meu. Eu chego à zona da frutaria e vejo um senhor de idade a tentar esticar-se por cima do expositor das maçãs para tirar um saco do rolo, que por algum motivo está pendurado num varão a uma altura de 1,70, mesmo no centro dos expositores. Tirei um saco e ofereci-lhe. "Já agora, agradeço." "Ora essa, não há problema nenhum." Foi á vida dele, eu fui à minha.
E nisto eu chego à caixa para pagar: começo a pousar as minhas coisas no mini tapete rolante (os pingo doces pequenos têm zonas de caixa em miniatura, uma comédia!), digo "Boa tarde!" à funcionária, como manda a boa educação. A resposta? Um braço bem assente sobre o comprimento do tapete rolante e empurra as minhas coisas todas para trás, fazendo com que metade delas caia no chão (felizmente nada se partiu...)
- Esta juventude apressada... - resmungou a senhora, pousando de forma petulante o separador de "Cliente seguinte" entre ela e as minhas compras.
Fiquei com cara de parva, mas lá mantive o bom humor. Sorrisinho, que este trabalho dever ser chato, deve aparecer muita gente estúpida por aqui todos os dias, vá, não é nada contigo...
Lá começou a registar os produtos, enquanto eu recolhia do chão o que tinha caído e voltava a por em cima da passadeira rolante, perante o ar surpreso do tipo atrás de mim na fila. Quando terminei, pousei o cesto que tinha usado em cima dos restantes que estavam ao lado da caixa e ia avançar para arrumar as coisas nos sacos quando fui de novo interpelada pela senhora:
- Então vai deixar isso aí?? Estas meninas que não têm educação nenhuma, que acham que é tudo delas... Então não está a ver que não se podem deixar os cestos aí, que estorva? Que, se daqui a um bocado um colega quiser vir trabalhar para essa caixa não se consegue sentar?? Esta gente não tem educação nenhuma!
Fiquei parva, devo ter feito mesmo ar de parva a olhar para ela, e disse-lhe a unica coisa que fazia sentido ali:
- Peço desculpa, só pousei o cesto aqui porque já cá estavam outros, mas se não é aqui o sitio, diga-me onde é, que não me custa nada levar até lá. - sorrisinho, vá lá, que a senhora está a ter um dia difícil, com compreenção a coisa vai lá.
- Eu não digo? A má educação desta gente, acha que é tudo delas! Estas menininhas que só porque são bonitinhas acham que podem fazer tudo! Acha que isto é assim, chega aqui e faz o que quer? Não é assim!
Era a voz da mulher a subir e a minha boa vontade a descer.
- Então diga lá onde é que isto se arruma, que não me custa nada levar lá e assim aprendo e para a próxima já não acontece.
- Ó SR. NÃO SEI QUANTOOOOOS!!! Venha cá tirar-me isto daqui, que estas meninas chegam aqui e fazem tudo de qualquer maneira sem consideração nenhuma pelo trabalho de ninguém, e daqui a bocado nem se consegue passar ali!
Filha da mãe!
Lá conti o veneno (uma mulher lembra-se que é do norte quando a irritam e tudo o que apetece é dizer logo meia duzia de palavrões), não falei mais do assunto que percebi que não valia a pena, respirei fundo e avancei. Pedi 2 sacos, se faz favor (no pingo eles são pagos, e eu tinha-me esquecido do fiel trolei em casa).
- Não sabe que isso não é nada ecológico? - atira-me 2 sacos para cima - Ai estas meninas!!!
O sangue fervia-me nas veias, mas lá fui arrumando as coisas nos sacos, que me iam sendo atiradas de forma completamente abrutalhada. O meu chocolate e as bolachas ficaram logo meios moídos. Filha da mãe outra vez!
- São não-sei-quantos euros! - diz no tom do costume. Que isto todos lhe devem, ninguém lhe paga, mas naquele dia ia-se vingar do mundo atormentando clientes! Terminei de arrumar o artigo que tinha na mão, quando ouço a voz de novo, de novo num tom a subir - SÃO NÃO-SEI-QUANTOS EUROS!!! Tem gente atrás de si!
A minha paciencia já ia nos limites, nem lhe olhei para a cara, a minha boa educação no buraco, saquei do cartão multi banco, paguei, atirou-me o cartão e o talão para cima, nem um reles boa tarde me disse, nem a porcaria do "volte sempre" que são obrigados a dizer pelo protocolo da empresa.
FILHA DA MÃE!!!
Eu estava a espumar de fúria, ansiosa por sair dali, mas demorei mais uns instantes a arrumar a carteira e a por as ultimas coisas nos sacos.
E eis que ouço uma voz de veludo:
- Boa tarde. Vai desejar saco?
Sim. Era a grandessissima VACA, a atender o tipo que estava atrás de mim na fila e que só tinha uma reles lata de cerveja para pagar!!! Ah, ele merece um "boa tarde" e um sorriso, que não estorva. E também merece a oferta de um saquinho, que levar uma lata na mão não pode ser, eu é que era pouco ecológica. Ele teve um "muito obrigada e boa tarde" da grande vaca filha da mãe que me atendeu a patada!!
Portanto a senhora não estava a ter um mau dia não senhor. A senhora está é a ter uma crise de meia idade daquelas valentes em que ganha um ódio visceral a mulheres mais jovens que ela, principalmente se parecem simpáticas e bem dispostas com a vida, que se ela não está bem disposta com a vida, não vão ser estas "menininhas" que vão estar na presença dela! Mas agora que o cliente é uma coisa que veste calças, a coisa muda de figura. Agora que o cliente tem a oportunidade, se ela tiver uma voz de veludo e uma postura irrepreensível, de olhar para ela e a ver por aquilo que ela é: uma mulher mais velha, é verdade, mas cheia de vida ainda, cheia de experiencia e bons principios, ao contrário destas menininhas safadas que lhe aparecem na caixa, e que não interessam a ninguém, diz o grande poço de virtudes, aí a coisa muda claramente de figura!
Minha senhora, digo-lhe: o carácter de uma pessoa não se vê na forma como trata as pessoas que considera suas iguais ou superiores, mas na forma como trata as que considera inferiores. E boa educação usa-se e eu realmente gosto. E realmente uso. Portanto parece-me que realmente mereço.
Deu vontade de ir fazer queixa, mas não fui. Por outro lado vim para casa tão danada que nem dei por os pacotes de leite me virem a bater na perna direira e agora estou toda pisada. É para aprender a também não ter mau feitio, lol!